Opinião - Flavia Boggio: Cheio de clichês, 'Som da Liberdade' se tornou cloroquina do cinema

Análise crítica: O impacto repetitivo de “Som da Liberdade” no cinema moderno

Recentemente, o filme “Som da Liberdade” tem sido o líder de bilheteria no Brasil. Boa parte desse sucesso se deve ao financiamento de ingressos feito pelos próprios fãs, que também se empenham em divulgar a produção.

Contudo, nas redes sociais, há muitas polêmicas em torno deste filme. No antigo Twitter, aqueles que gostam são chamados de conspiracionistas, enquanto os que não gostam são acusados de apoiar a pedofilia.

Curioso por natureza, e apreciador de filmes como “Vovó Zona” e “Cinderela Baiana”, decidi assistir ao filme durante meu horário de almoço para tirar minhas próprias conclusões.

O enredo é baseado na história verídica de Tim Ballard, ex-agente do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, que está em busca de uma garotinha hondurenha sequestrada por uma rede internacional de pedofilia.

Apesar de tratar de um tema muito importante, o roteiro é repleto de clichês e os personagens são superficiais. O que motiva o protagonista é sua fé em Deus e a ideia de que aquela garotinha poderia ser sua própria filha. Parece que crianças latinas sendo escravizadas sexualmente não são motivo suficiente para ele agir.

A interpretação de Jim Caviezel é um pouco preguiçosa e, em certos momentos, chega a ser comparada à atuação de Fernanda Montenegro. Já os traficantes de crianças mais parecem vilões saídos do filme “Tudo por uma Esmeralda”.

Confesso que acabei cochilando e quando acordei, o protagonista estava convencendo um empresário a ajudá-lo, repetindo sem parar: “Ela poderia ser sua filha”.

O problema não está no filme em si, mas no fato de usarem a legítima questão da pedofilia como disfarce para teorias conspiracionistas infundadas.

Há uma falsa ideia de que os principais responsáveis pelos casos de pedofilia são empresários progressistas. O próprio ator Jim Caviezel costuma espalhar a teoria de que milionários utilizam crianças para extrair hormônios e produzir uma droga extremamente poderosa.

Isso desvia o foco da verdadeira causa do problema. A maioria dos casos de pedofilia são cometidos por pessoas de confiança, que estão próximas às vítimas.

Tanto o ex-agente que inspirou o protagonista quanto os produtores do filme são acusados de envolvimento em casos de abuso sexual e sequestro de crianças. É mais um clichê presente no filme.

O que deveria ser apenas um filme acabou se transformando na cloroquina cinematográfica, no terraplanismo do cinema.


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e informe que a fonte deste artigo é https://www1.folha.uol.com.br/colunas/flavia-boggio/2023/10/cheio-de-cliches-som-da-liberdade-se-tornou-cloroquina-do-cinema.shtml